A Escola de Pescadores da Macaé ficava no Pontal, era a fronteira entre o lugar dos pescadores e o mar onde trabalham. Essa escola destinava-se aos filhos desses trabalhadores. Pais e filhos saíam cedo, uns pelo canal de acesso ao mar, outros pelas calçadas destruídas pela superpopulação da região e pelo abandono de ações e políticas públicas voltadas a este lugar e a estas pessoas na “capital do petróleo”, como Macaé era conhecida entre os anos de 2004 e 2009.

 

Desde os anos 1970, a pacata cidade de quase 300 anos, movida até então pela economia agrícola, sobretudo a familiar, e a pesca artesanal, passa a ser encarada como uma potência petrolífera de alta tecnologia, graças a instalação de plataformas de extração de petróleo em águas profundas. Isso passa a atrair multidões para a cidade, sem que as pessoas possam ser absorvidas devido à falta de qualificação profissional. Com o adensamento demográfico, a especulação imobiliária gera um aumento do custo de vida na região e isso obriga aos imigrantes desempregados a assumirem funções tradicionais na cidade, como a pesca. Estes trabalhadores, no entanto, não têm condições de formar seus filhos, nem querem convencê-los da possibilidade de que venham a também trabalhar na pesca. Por outro lado, as vagas almejadas nas plataformas também representam um sonho muito distante. E o que resta a muitas das crianças é a escola e a rua. Com o adensamento demográfico, o aumento do custo de vida e o desenvolvimento econômico de parte da cidade, crescem também os índices de violência em Macaé. A saída proposta pela prefeitura local foi a criação de uma escola integral com perspectiva profissionalizante que servisse como modelo e, ao mesmo tempo, que mantivesse estudantes considerados em situação de risco e violência ocupados em atividades formativas e profissionalizantes. Foi assim que, em parceria com o Núcleo de Projetos de Extensão Interdisciplinares UFRJ-Mar. Este Núcleo envolvia diversas unidades da universidade em ações educativas em parcerias com escolas do ciclo básico, propondo metodologias participativas com foco em experiências associadas ao mar. A ideia da Escola de Pescadores era a de formar jovens de 10 a 15 anos em Construção Naval e Cultura Marítima.

 

A escola contava com disciplinas propedêuticas, oferecidas pela rede municipal de educação, e outras específicas oferecidas pelo Núcleo. Sua metodologia se realizava, nas atividades específicas, a partir de projetos, como construção de pequenas embarcações, estudos da cadeia produtiva da pesca na região ou filmes sobre a vida, o trabalho e as condições de trabalho e renda dos trabalhadores do Mar. Um exemplo desses projetos é o filme “Mar Amaro” (2007). Realizado por 60 estudantes e 10 professores da escola, este filme mostra o lugar onde habitam os pescadores e seus filhos. “Mar Amaro, a saída” é um filme que fala das fronteiras de um lugar marginalizado e das limitações das pessoas ali abandonadas. A Escola de Pescadores fechou em 2009, ela ficava no Pontal, a ponta esquecida da capital nacional do petróleo, que foi registrada no filme Mar Amaro.

 

Entre 2006 e 2007, o Projeto Canal  propôs a realização de três documentários com curta duração sobre as contradições na esfera dos trabalhos no mar na região a 10 professores e 60 estudantes da Escola Municipal de Pescadores, em Macaé. Conhecida na época como “a capital do petróleo nacional”, esta cidade de 205 anos, teve boa parte de sua história ligada à cultura marítima. Desde a década de 1970, a instalação da Petrobrás na região tem atraído muitas pessoas de vários lugares do país. Uma boa parte dos migrantes, entretanto, não possui a qualificação profissional exigida no trabalho técnico das empresas de apoio à petrolífera. Oriundos de lugares muito miseráveis, eles, então, se refugiaram nas regiões ocupadas pelos tradicionais pescadores, assumindo funções subalternas em uma atividade produtiva altamente exploratória. Dos três filmes previstos, todavia,  foi concluído apenas “Mar Amaro”, que fala sobre o lugar onde habitam os tradicionais e os novos pescadores. “Memórias do Pontal” e “Histórias de Pescador”, outros dois curtas previstos, nunca puderam ser finalizados.

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