Memória - GEM 15 anos

O Grupo de Educação Multimídia – GEM/UFRJ – completa 15 anos entre 2019 e 2020. Duas datas de aniversário: uma da concepção de sua filosofia, quando suas ações iniciaram em 2004, outra da realização das práticas do grupo fundante com a identidade GEM, em 2005. Professor José Cubero, o fundador do grupo, iniciou suas atividades junto a um núcleo de projetos interdisciplinares de extensão da UFRJ com oficinas de animação no formato stop motion para crianças e adolescentes em contextos escolares. Tais oficinas envolviam formação de estudantes universitários e pesquisa de metodologias participativas de ensino aprendizagem. O Núcleo Interdisciplinar UFRJ-Mar agregava diferentes iniciativas, sobretudo nas cidades litorâneas do interior fluminense, vislumbrando diagnosticar demandas para políticas públicas que envolvessem o apoio técnico, científico e cultural da universidade para o desenvolvimento social. O objetivo central do UFRJ-Mar, através de suas intervenções extensionistas, era participar de um amplo projeto nacional de interiorização e expansão das universidades públicas, iniciado em 2003. O GEM, portanto, nasceu no âmbito de uma filosofia objetivada na ampliação do acesso à formação crítica, técnica e científica destinada à emancipação social brasileira, principalmente no que diz respeito às camadas populares.

José Cubero (1943-2016) era aposentado pela Universidad de La Habana quando veio para o Brasil no final dos anos 1990. Em Cuba, ele foi professor de psicopedagogia e apreciação cinematográfica, além disso, ele participou da criação a TV Universitária e da Cinemateca na universidade em que lecionava e a qual representou em muitos cursos de formação crítica e multimídia em diversos países europeus e latinoamericanos. “O que importa não são as mídias, mas o método de abordagem” (CUBERO, notas do arquivo pessoal) é uma frase que sintetiza o seu pensamento e está no centro da perspectiva do GEM, desde a sua fundação.

Em 2004, o GEM participou de 2 eventos semestrais promovidos pelo UFRJ-Mar, no interior do estado do Rio de Janeiro, e destinados a oferecer mais de 50 oficinas de produção técnica e crítica de diferentes unidades da UFRJ. Ele iniciou suas ações com oficinas de vídeos animados cuja roteirização, planificação, animação e edição aconteciam em barracas partilhadas por outras oficinas, como a de costura e cola de modelos náuticos (strip-planking), pintura de nautimodelismo, surf, mergulho (snorkel), etc. em praias nas cidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo. Além disso, também ofereceu um curso de formação continuada envolvendo multimeios para professores das escolas do ensino básico da região em que os Festivais UFRJ-Mar estavam sendo realizados naquele ano. O grupo participou dos festivais, com oficinas de animação, até a sua última edição realizada até então, em Paraty em 2018.

Em 2005, o GEM passou a fazer parte do projeto Escola de Pescadores, fruto da parceria do UFRJ-Mar com a Prefeitura de Macaé para atender 400 crianças do ensino fundamental em um espaço experimental de formação básica integral e integrada à formação técnica nas áreas de construção naval, mergulho e pesca. Este projeto respondia objetivamente a demandas observadas na região por vagas nas escolas e por formação técnica de trabalhadores em situação de marginalização. A Escola de Pescadores (2004-2009) não prosperou mas ofereceu acumulação metodológica para o UFRJ-Mar e para o GEM iniciarem um novo projeto na cidade de Cabo Frio: O Instituto Politécnico da UFRJ – IPUFRJ. O IP foi uma escola de formação de professores, no nível da pós-graduação, e técnicos, no nível do ensino médio, nas áreas de Cultura Marítima, Análises Químicas e Produção de Áudio e Vídeo. A partir da concepção politécnica, o instituto tinha o trabalho como princípio educativo (BENVINDO, 2015) e a educação realizada por meio de projetos técnicos e interdisciplinares para resolver demandas identificadas na região de sua sede. O IPUFRJ sobreviveu com muitas dificuldades de 2008 a 2016, quando cortes no orçamento federal inviabilizaram seu financiamento pela UFRJ.

O GEM desenvolveu sua concepção metodológica no âmbito das ações de Núcleo Interdisciplinar UFRJ-Mar, sobretudo nos festivais e nas duas escolas. Contudo, o grupo vem realizando oficinas de cinema, vídeo, animação, jogos eletrônicos, ilustração, escrita criativa, etc, nos mais variados formatos e em diferentes contextos escolares, seja do ensino básico, técnico ou universitário (graduação e pós-graduação). Atualmente, ele integra o Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social – NIDES/UFRJ. Trata-se de uma unidade colegiada que agrega diferentes projetos e programas de ensino, pesquisa e extensão preocupados com o apoio técnico ao desenvolvimento regional e social. Além das parcerias com outros laboratórios da UFRJ e com instituições escolares externas, o grupo participa do Programa de Mestrado Profissional do NIDES, sobretudo na área de concentração Trabalho e Formação Humana e Politécnica, desenvolvendo ensino, pesquisa e extensão em metodologias participativas de ensino e aprendizagem por meio de projetos de produção em distintas mídias digitais e analógicas. O Grupo de Educação Multimídia tem desenvolvido formas de abordagem formativa de temas curriculares em instituições escolares, promovendo estratégias da perspectiva transversal da educação a partir de projetos e de fundamentação teórica e crítica de trabalhos produtivos, em especial envolvendo expressões artísticas e documentais audiovisuais. Seu foco, lapidado nestes 15 anos, ilumina a concepção de oficina como instrumento central para a emancipação técnica, científica e cultural através da organização coletiva e participativa do trabalho produtivo (MAIA, 2018).

 

Comemorar os 15 anos do GEM em um contexto de pressão e ação do capital internacional pelo desmonte de políticas públicas, o que ameaça a própria democracia no Brasil, é uma memória de resistência, é uma força de contestação a tudo o que for contrário à emancipação social e popular. Ouvir o apelo por um projeto emancipatório que emerge do passado é estar atento à transformação do presente e do futuro que nos aguarda.

“Ouvir o apelo do passado significa também estar atento a esse apelo de felicidade e, portanto, de transformação do presente, mesmo quando ele parece estar sufocado e ressoar de maneira quase inaudível.”

(Lembrar, escrever, esquecer - Geanne Marie Gagnebin) 

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