Oficinas

“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”, escreveu Guimarães Rosa. É bem provável que todo estudante do ciclo básico, de qualquer região ou classe social, compreenda esta imagem. O peso do abismo e a leveza do barquinho compõem o paradoxo que torna a metáfora acessível. Mas a leitura passível esvazia a literatura, a tornando apenas imagem, objeto, e padroniza esta imagem na informação superficial. Entretanto, desdobrar o texto literário, mergulhando na metáfora, e dobrar os elementos do cenário insólito para traduzir o sentido literário em sentido visual, ou até audiovisual, pode tornar a experiência da leitura e da escritura algo bem mais produtivo. A tradução intersemiótica exige um aprofundar-se nas tramas de cada uma das linguagens em questão. Então, formar alguém que entenda leitura e escrita como tradução pode ser um ganho.

O processo de compreensão do caráter produtivo na linguagem escrita, na ação da leitura ou da escritura, pode oferecer resultados bastante interessantes em situações de formação. Pois o esforço do trabalho do estudante na produção de conhecimento confere a si condições necessárias para multiplicar seus próprios saberes e habilidades. Seja por meio das diferentes maneiras de acessar a tradição na qual este trabalho se insere, seja por meio dos diferentes testes de rudimentos emulados ou reformulados a partir dessa própria tradição. Assim, leitura e escritura estão implicadas uma na outra, e o texto, unidade que pressupõe um ato comunicativo entre diferentes atores num contexto, é sempre resultado de uma tradução, ou ainda transcriação.

O trabalho como princípio educativo pode despertar o interesse do estudante, uma vez que ele tem condições de vislumbrar, ou ao menos idealizar, o produto em cuja criação está envolvido. Esta visão da educação, por sua vez, também pode permitir aos envolvidos e interessados compreender a avaliação como ferramenta importante de reelaboração no processo e do seu resultado. Por isso mesmo, o instrumento avaliativo é parte processual relevante à revisão do trabalho e, portanto, da aprendizagem a partir do processo realizado. Linguagem como trabalho de tradução na formação dos ciclos básicos tem estimulado o “Projeto Travessias: Palavra-Imagem” a encontrar caminhos possíveis para o déficit da leitura e da escrita, e a propor métodos para a construção de ações de interface entre a literatura e expressões audiovisuais, em especial a animação e o cinema, mas também o teatro e algumas ações associadas a jogos, analógicos e eletrônicos.

Este projeto está vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura, da Faculdade de Letras da UFRJ. Travessias foi criado em 2008 e, de lá para cá, tem oferecido oficinas de tradução da linguagem literária para expressões audiovisuais em diferentes formatos e a diferentes grupos: estudantes de ciclos básicos e professores das áreas de linguagens nas redes públicas de educação; estudantes universitários; comunidade em geral em ações extensionistas em festivais e eventos públicos. Organizado pelo Grupo de Educação Multimídia – GEM (Laboratório de ensino, pesquisa e extensão da Faculdade de Letras – UFRJ), este projeto, além disso, tem oferecido um campo interdisciplinar de formação a diversos estudantes de áreas distintas dos cursos desta universidade, que trabalham como bolsistas Pibex nas pesquisas relacionadas às linguagens envolvidas, na organização das oficinas e na avaliação dos seus resultados.

Abordar a linguagem como uma construção carregada de sentido requer conhecer as suas estratégias no processo de significação. Traduzir os estranhamentos causados pelos arranjos de uma expressão específica na construção de sentidos semelhantes com recursos de outra expressão estimula o conhecimento mais profundo de possibilidades nas duas formas. Isso talvez ajude a superar o papel passivo que os meios eletrônicos têm imposto aos padrões de leitura e de escrita na formação das novas gerações. No trabalho orientado de tradução da frase de Guimarães Rosa, é possível que mesmo estudantes bombardeados pela superficialidade da imagem na cultura de massa tenham condições de compreender que abismo pode ser mais que um buraco sem fundo, que barquinho de papel pode ser mais que um objeto lúdico de transgressão e que a navegação é sempre um processo de travessia. 

ENDEREÇO:

Espaço Cultural João Cabral de Melo Neto

Faculdade de Letras da UFRJ
Av. Horácio de Macedo, 2151
Cidade Universitária - CEP 21941-917
Rio de Janeiro - RJ

CONTATO: 

gem@letras.ufrj.br

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